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Vou começar sendo polêmico: você deve negar doações.

É isso mesmo. Dizer “não” para doadores é uma parte MUITO importante do sucesso na captação de recursos.

Assim como o doador pode dizer “sim” ou “não” para você, você pode dizer “sim” ou “não” para ele.

Sei que parece loucura, mas vamos lá…

planilha planejamento recursos

A confusão na relação entre ONGs e doadores

No terceiro setor, há uma frequente confusão na relação entre ONGs e doadores: a ONG presta um serviço gratuito para o doador e, apesar de não receber UM CENTAVO por isso, sai na foto como grande beneficiada.

Um exemplo: uma empresa procura uma ONG. Deseja doar 100 cestas básicas para famílias do território da organização social. A doação será 100% em alimentos, que devem ser 100% distribuídos. A empresa não gosta de doar dinheiro.

A ação social acontece. A ONG usa sua sede para estocar os alimentos e mobiliza funcionários para comprar, montar e distribuir as cestas, sem receber por isso.

No fim, faz um post emocionado, agradecendo a empresa pela parceria.

Notou a inversão? 

A ONG usou a sede, o tempo dos funcionários e a credibilidade para viabilizar a ação. Não foi paga para isso. E ainda agradeceu.

No final do mês, são grandes as chances de faltar dinheiro para pagar os funcionários ou o aluguel da sede – os mesmos usados na ação.

A “parceria” foi ótima para a empresa, mas ruim para ONG.

Escolha seus doadores

Situações como essa acima são extremamente normais.

ONGs aceitam doações que não as beneficiam em nada, apenas para não dizerem “não”.

Você NÃO DEVE ACEITAR TODA DOAÇÃO QUE É OFERECIDA.

Este é um direito seu. Doações fora do seu escopo ou que gerem custos com os quais você não quer arcar podem ser negadas.

Para facilitar sua avaliação sobre futuras doações, coloco aqui três possibilidades sobre as quais vale refletir:

Doações sem nenhuma contrapartida para a organização 

Se a doação for 100% destinada para projetos, cabe a você avaliar: vale a pena o esforço? Talvez não.

Um bom exemplo é o que dei acima, das cestas básicas.

Doações muito complicadas 

Às vezes a doação pode ser boa para a organização, mas exigir documentação ou tempo dos integrantes que simplesmente não compensam o esforço.

Imagine uma doação que demande uma inscrição muito longa, com dezenas de documentos… pode não valer a hora das pessoas empregadas.

Doações fora do seu escopo de trabalho 

A doação pode ser super simples e gerar alguma contrapartida para a ONG, mas estar fora do escopo central. Nesse caso, reflita se faz sentido sair do seu foco.

Uma empresa, por exemplo, pode se oferecer para construir uma piscina na sua ONG, mas você não tem NENHUMA atividade para usá-la. Vale a pena criar um novo projeto só para aceitar a doação?

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O que fazer caso chegue uma proposta deste tipo?

Sei muito bem que não é fácil negar uma doação.

Dizer “não”, por mais que possa fazer todo sentido, é um momento delicado.

Por isso, vou te dar três possibilidades de resposta a uma doação indesejada, caso você não queria simplesmente negar:

Indique outra ONG 

Certamente há outra organização que precisa da doação que para você não é tão interessante. Faça a ponte entre o potencial doador e a ONG. Pode ser bom para os dois lados!

Negocie uma mudança no escopo da doação 

Outra possibilidade sempre muito interessante é expor sua real situação para o potencial doador e tentar mudar o que será doado. 

Porque não usar o recurso da piscina para construir um galpão?

Aceite, mas deixe claro que no futuro a parceria precisa dar outros frutos  

Uma terceira resposta possível, da qual eu gosto muito, é atender o potencial doador, mas deixar claro que uma compensação futura seria justa.

A empresa deseja doar 100 cestas básicas através da sua ONG? Exponha para ela os custos que você terá, como para você está duro pagar isso sozinho. No futuro, você espera ser lembrado quando ela definir as doações financeiras do próximo ano.

No Brasil, as ONGs têm uma cultura muito voltada a receber – e agradecer – qualquer doação.

Quando receber uma proposta, reflita se é realmente o melhor para você. Se não for, lembre-se, não tenha vergonha de dizer “não”.

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